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Chacina de lembranças

Hoje foi o dia anual dos papéis, quando transcrevo

o que vale a pena e jogo fora o que não presta.

Pra quem não sabe, a memória é seletiva.

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Bem aventurados pés de pinus

Comecei hoje a organizar meus papéis. Estou pasmo. Acho mais fácil lavar as louças do que arrumar papéis. É que preciso colocá-los em pastas, transcrevê-los para seus devidos lugares ou simplesmente descartá-los.

Graças à minha mãe, adquiri o saudável hábito de jogar fora coisas inúteis, como muitos dos papéis que guardei durante o ano. Neles estão os registros de minhas preocupações como “coisas a fazer hoje” ou “coisas a fazer essa semana”, além de um incontável número de idéias aleatórias que eu sonho um dia poder organizar. Há papéis que revelam que comprei pães e caixas de leite; aliás, as listas de mercado muito freqüentemente se mesclam às de tarefas da semana.

Uma acumulação de papéis de tamanhos variados, desde folhas sulfite recheadas de coisas dispersas até papéis minúsculos, com pequenos lembretes, anotações infinitesimais de filmes – enfim, uma profusão de curiosidades a esmo e coisas feitas. Quando eu finalmente sento para processar tudo isso, aos poucos vou sendo tomado pela sensação de que sou um carrasco matador de lembranças. É que por mais que hajam coisas realmente sem sentido nesses papéis, eles trazem até as marcas das xícaras de café que tomei. Vejo que em muitos deles estão rabiscados números de telefone – pessoas que conheci, pessoas com que sai, até as que passaram a ser importantes para mim; e por fim, as que me esqueceram. Encontrei um papel com o nome de alguém que se insinuou, outro com o nome de uma música que eu ouvi na rua e gostei muito. Tenho trechos que parecem ser diários com coisas interessantes ou engraçadas que aconteceram.

Quando eu jogar eles fora, as lembranças ficarão apenas na minha memória, onde o risco delas se fragmentarem é imenso já que nós guardaremos apenas as lembranças mais marcantes – Trechinhos felizes de um ano de vida que se esvaem.

Tenho o cuidado de incinerar os papéis que me parecem comprometedores, rabisco-os copiosamente quando são muito secretos, ateio-lhes fogo, rasgo-os em pedaços pequenos e depois misturo-os ao lixo orgânico – o que é segredo, continua segredo. Eu sei que ninguém vai revirar meu lixo para saber a meu respeito, mas me sinto desconfortável com a possibilidade de que alguém saiba de minhas confidências, que nesse caso, serão tomadas como as de um estranho. Talvez este seja um sinal de ultra-individualismo fóbico, que eu já não tenho meios de conter. De qualquer modo, eu queria que eles continuassem comigo, pra me lembrar das mais ínfimas sensações que se apoderaram de mim nos momentos em que foram confeccionados.

Mas eles serão organizados e os outros eliminados, para dar espaço apenas para as emoções mais fortes que eu mesmo, sem fazer consulta, possa contar.

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