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Rosa punk – final

A rosa se incomodou com o botão.

Depois de tanto perrengue ainda mais essa?

Levantou devagar as gavinhas

pra sacar a proto flor. Fazer isso dói,

e ela não tinha a certeza de antes,

do dia em que saiu do jardim.

De repente moça e rapaz surgiram na sala.

A rosa se aquietou disfarçada.

Puseram água esquentar pro café,

e ela magoada de ser ornamento.

O rapaz tava atrasado e catou a mochila.

A rosa aproveitou pra pular na água quente:

seria a moça incauta sua vítima.

O rapaz saiu pela porta e a fechou.

A moça gritou “rapaz!” e a rosa já soltava o veneno.

Ele voltou.

Estavam com boca de manhã e se beijaram.

Olharam nos olhos.

Disseram até mais.

“Eu te amo”, talvez.

A rosa viu tudo e murchou.

Agarrou a beirada de lata,

gavinha molinha e cor apagada,

se arrastou moribunda chaleira afora.

A moça voltou e encontrou a rosa na pia.

Sorriu: “um presente!”

O café não matou.

A moça passou o dia sorrindo.

O rapaz lembrando do beijo.

E a rosa morreu sendo planta,

não das bobinhas;

nem das brancas ou amarelas;

mas sempre e sempre denovo

uma rosa.

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Rosa punk – parte III

A rosa acordou entre as coroas de cristo.

Elas falavam mal de todo mundo que passava.

Como ela sairia dali pra matar alguém?

O moço que seguiu a rosa ontem sempre passava ali a trabalho.

Ele viu a rosa e a reconheceu na hora. Céus! Ele reconheceu pelos galhos –

não havia mais botão. Arrancou-a e foi pra casa.

Agora ela não podia matá-lo. Foi posta n’água e se fingiu de planta boba.

Todo mundo dormiu. De manhã a rosa se sentiu estranha:

era outro botão começando a nascer!

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Rosa punk – parte II

A rosa sem botão saiu correndo pela rua, sem saber

como chegar na cidade.

Viu uma camionete de entregas e pulo na carroceria.

Um cara veio, deu partida e saiu. A rosa se levantou e viu o jardim

ficando pra trás. Sentiu o vento assoviar nos espinhos.

O carro parou no semáforo da avenida principal.

A rosa pulou e saiu correndo, um moleque tentou catar ela

e os passantes ficaram boquiabertos.

“Rosas são bonitas que se ganha de quem se ama” – besteira.

Um rapaz saiu disparado atrás da rosa. Ela pulou

nas coroas de cristo para se esconder.

Já era noite, estava cansada e dormiu ali.

Quando amanheceu, suas raízes tinham brotado

e ela estava plantada com as ervas bobinhas de um canteiro!

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