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Odisséia Paranaense – Parte II

Aquele carro saiu em disparada, ultrapassando todos os outros carros no caminho, virando onde não podia e acelerando cada vez mais. No banco de trás eu procurava fazer expressões de desespero para comover o taxista.

Naturalmente, todos os semáforos estavam fechados… Cada minuto mais próximo das 22:30 me deixava mais tenso. Quando notei, esta hora já tinha chegado, ou seja, o ônibus estaria saindo e estávamos no trânsito ainda. Ele não vinha de outra cidade, não teria motivos para se atrasar e eu já tinha me lascado.

Decidi tentar trocar a passagem e viajar no dia seguinte, arruinando todos os meus planos.

Quando o táxi encostou na rodoviária pulei fora entregando o dinheiro e fui saindo, com alguma esperança de ainda ver o ônibus. Enquanto caminhava disse ao taxista que ele podia ficar com o troco. Saí fuçando os bolsos e não conseguia achar minha passagem.

Olhei pro lado de fora da plataforma e o ônibus estava lá! Sim, estava no lugar, porém com todos os passageiros embarcados e os porta-malas fechados. Entreguei a passagem pro carinha que fica lá as destacando e já fui entrando.

No entanto, ele teve a audácia de perguntar minha idade. Respondi sumariamente que tinha 20 anos. Ele virou as costas dizendo que faltava preencher sei lá o que na passagem, para minha alegria.

Ele tava era desconfiado que eu estava mentindo – enquanto o ônibus já funcionava o motor. Ao invés de tentar resolver meu problema ele começou a bater boca com dois caras bêbados que estavam sendo impedidos de embarcar.

O clima tava esquentando e a multidão de parentes se aglomerava para ver o bate-boca. Lembro-me do carinha retrucar o passageiro briguento com um “o problema é do senhor” – uma forma eufêmica de “foda-se”. Me intrometi na discussão como quem não sabe o que está acontecendo, “e aí ?”, fui meio ríspido e ele deixou eu embarcar sem mais cerimônia.

Enfim, eu estava lá dentro daquele ônibus lotado, pronto para sair. Fui até o meu banco e lá estava ela, a famigerada vovó esperta que rouba assentos alheios. Eu ia expulsar ela, é vovó, é bonitinha, mas desrespeita regras. Pensando melhor não ia pegar bem um rapaz expulsar do assento uma senhora que colonizou o norte paranaense.

Numa tentativa de dosá-la de cimancol, perguntei se ela gostava de viajar na janela (o meu lugar). Ela respondeu secamente que sim. Achei que poderia tomar meu lugar assim que ela saísse do ônibus e perguntei então se ela ia até São Paulo (o destino final). Ela respondeu novamente que sim, sem pensar muito. Eu sorri olhando para ela enquanto pensava: velha cretina.

O motorista entrou no ônibus e começou a recitar aquele texto manjado que deve ser mais ou menos assim:

–         Boa noite eu sou o motorista Cleosmar e vou acompanhá-los até Londrina onde o motorista Osmir vai seguir com vocês até São Paulo. Nas janelas existem saídas de emergência, no fundo do carro há um banheiro e água gelada, para objetos de valor nós possuímos nosso compartimento de segurança, a Garcia deseja a todos uma boa viagem. Alguma pergunta?

Nessa hora uma mulher meio deformada, parecida com a pig dos muppets, se manifestou. Ela vestia roupas escuras e estava com a maquiagem borrada. Esteve escorada no banco o tempo todo e quando o motorista terminou de falar ela já estava com o dedo levantado e disse “eu tenho uma pergunta”:

continua

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Odisséia Paranaense – Parte I

Na sexta feira, depois de algumas cervejas eu dormi. Pela manhã tive a sensação que dormia como se sonhasse estar acordado, de fato, acordei como se sonhasse que dormia. E estava muito cedo! Ótimo, levantei e já comecei a arrumar minhas malas, coloquei um som torando enquanto ajeitava tudo.

Esse era o dia em que eu ia pra São Paulo, correr atrás de meus planos mirabolantes, jogar numa loteria feroz. Fazia mais de uma semana que eu estava planejando esta viagem, fui deixando tudo agilizado pra não haver contratempos.

Liguei então pra um amigo pra ele ir comer no RU com a gente, como já era combinado, pois ia rolar uma feijoada – que pelo sabor, só pode ser de outro lugar, menos do RU. Antes de ir para lá fui pagar umas contas e comprar uns calmantes.

No fino restaurante, encontrei meus amigos. Eles tinham uma sacola, com alguma coisa dentro que eu não sabia o que era. Depois que entramos e sentamos eis a revelação: não só havia guardanapos, mas também uma travessa de alface americana, para meu deleite. Saí em transe de tanta comida e tantas risadas.

Subi pro inglês e me ocupei quase a tarde toda com os quizes, tive um sossego no final pois eu e a teacher ficamos trocando poemas no lab. Eu estava muito animado com a viagem que ia fazer a noite, pois significava uma oportunidade de ouro pra meus planos de vida colossais.DSC01504

A hora H se aproximava cada vez mais. Subi e fui terminando de arrumar minhas malas, com toda paciência que me foi possível. Tudo estava dentro dos conformes. Já era quase dez horas quando fui ligar pro táxi.

Bem nessa hora, minha mãe me ligou. Falei rapidamente com ela, que estava tão ansiosa quanto eu. Falei que ia desligar, pois precisava chamar o táxi. Liguei para um, finalmente, mas ele não poderia vir, pois tinha que levar três pessoas numa festa na chácara… Circe ou Mirna, sei lá.

Fui ligar então pra outro táxi . Meu pai me ligou bem na hora. Fui conciso, estava começando a ficar preocupado o horário! Como eu já tinha falado com a família toda, liguei para outro táxi. E eu já estava em cima da hora. A educada atendente disse que não poderia mandar o táxi em cinco minutos. Insisti com ela, explicando que eu já estava atrasado. Com algum esforço ela me prometeu que ele chegaria em até dez minutos – eu não tinha outra opção.

Desci e fiquei na portaria esperando. Cinco minutos e nada. Dez minutos, senti um calafrio, pois já perdi ônibus uma vez e foi terrível. Liguei para o tal táxi e a atendente disse que ele já devia ter chegado. Isso me assustou, será que o taxista tinha se perdido ou o carro tinha quebrado? Tentei me acalmar, o que ficava cada vez mais difícil. Esperei mais três minutos. Liguei devolta, mas a moça insistia em querer me acalmar enquanto eu via a iminência de não conseguir viajar! Faltava só 10 minutos pro ônibus sair.

De repente surgiu um táxi. Nem perguntei nada, fui entrando e disse:

–         PRA RODOVIÁRIA, SENTA O PÉ!

continua

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